Meus cinco maiores problemas com 3% da Netflix

A nova série do Netflix é brasileira, é ficção científica, é distópica. Tem uma torcida enorme para que dê certo. Aquela história do “com muito orgulho, com muito amor”. Pois eu fui lá conferir o primeiro episódio. Bem, não verei o segundo. Eis as principais razões para eu ter pulado fora do barco apocalíptico brazuca.

Ezequiel

João Miguel é um ator brilhante. Provavelmente um dos melhores da sua geração. Assista Amarelo Manga e verá do que estamos falando. Mas sabe o que João Miguel não é? Carismático. E tudo bem. Nem todo ator é ou precisa ser. O papel de Ezequiel, a figura pública do processo que é utilizado para controlar os pobres e manter o status quo tinha que ser uma pessoa incrivelmente carismática. Pense Tom Hanks. Pense Selton Melo. O discurso de boas vindas aos novos candidatos não é o discurso de um general às tropas. Tem que ser encorajador, envolvente.

Considere Jogos Vorazes. O presidente da Capital é um sujeito asqueroso e intimidador, o senhor Donald Sutherland. Mas ele não é a cara dos jogos. Quem é a cara dos jogos? Ceaser Flickerman, um apresentador de TV fanfarrão e espalhafatoso, mas sempre sorridente e estranhamente animado com a quase certa probabilidade de morte de seus entrevistados. Ezequiel seria uma figura pública mais eficaz se fosse mais acolhedor aos candidatos. E isso daria ainda mais caldo nas cenas de bastidores, quando ele está preocupado em afogar seus funcionários sem aparente motivo. Uma dualidade que traria uma dinâmica ao personagem que, no momento, é denso como uma cartela de papelão.

Tá, é até possível que João Miguel mesmo fosse capaz de desenvolver um personagem assim e simplesmente não foi o que a direção lhe instruiu. Bem, então a culpa é da direção.

#AlckminDistópico
#AlckminDistópico

Diálogos

Diálogo é conflito. Ver dois personagens conversando, em teoria, implica em um choque de interesses. Implica em que algo naquela conversa moverá o enredo em frente. Uma destas pessoas sairá desta conversa de alguma forma diferente. Cerca de 70% dos diálogos em 3% (frase estranha, eu sei) é meramente expositivo. Serve apenas para situar a audiência, numa dramaturgia preguiçosa. Zezé Motta, por exemplo, passa o primeiro episódio reiterando a Ezequiel coisas que ele já sabe: “Você é o responsável pelo processo. Estes jovens esperam a vida toda por uma chance de se juntar aos 3%”, ou algo assim. São diálogos enfadonhos sobre nada, unicamente colocados ali para transmitir informação ao público. Dá nos nervos.

"Oi, só passei para te lembrar seu nome, sua motivação e sua função na trama. Beijo, tchau."
“Oi, só passei para te lembrar seu nome, sua motivação e sua função na trama. Beijo, tchau.”

 

Verba

Reza a lenda que a verba de produção da primeira temporada foi de 10 milhões. Para nós que não fazemos parte dos 3%, parece uma fortuna. É tipo o prêmio de cinco edições do BBB. Para produção, é troco. A principal aposta da Netflix para esta temporada, por exemplo, The Crown, custou 100 milhões e tem um capricho de direção de arte que samba na cara da nossa sociedade tupiniquim.

Mas alguém achou que dava para fazer uma série de ficção científica distópica com 10 milhões. Talvez fosse mesmo possível. Mas não foi o caso. O resultado desta falta de verba esbofeteia o telespectador o tempo todo. Todos os enquadramentos são em super close, fundo desfocado ou em ângulos inclinados (o famoso Dutch Angle). Tudo numa tentativa desesperada de mascarar o cenário de shopping center que deveria ser a porta de entrada para a Terra Futurista Prometida.

Nota-se também que havia verba para concepção de figurino, mas a realização é toda meio mal-ajambrada. O Brasil tem tradição em figurinos de pobre. Desde Joãozinho Trinta, fazemos roupas desconstruidonas como ninguém. O problema é o chique conceitual futurista e o seu ranço Chapolin Colorado. A solução do X cortado nas manguinhas para expor o brilhantinho dos ombros é de chorar.

"Tá vendo lá atrás? É o futuro, mas está fora de foco."
“Tá vendo lá atrás? É o futuro, mas está fora de foco.”

Relevância

Os realizadores de 3%, assim como seus defensores, batem no peito estufado quando refutam a acusação de que a série brazuca é uma cópia de Jogos Vorazes. Dizem, entre outras coisas, que a ideia de 3% surgiu muito antes do filme da Katniss Averdeen. Que em 2011 já tinha um curta/degustação rolando no Youtube. Tudo bem que o livro é de 2008, mas isso não vem ao caso. A ideia em si já não era original na época. O problema é que, entre o curta do Youtube e a série lançada no Netflix, 3% foi atropelada pelo zeitgeist. Ficções distópicas sobre jovens competindo pela sobrevivência se tornaram a norma, não a exceção. A ideia central da série virou quase um clichê. E, para piorar as coisas, a mesma Netflix lançou uma excelente série de ficção científica: Black Mirror. E a HBO chegou com Westworld. O parâmetro do gênero está nas alturas. Não dá para tentar emplacar o argumento requentado de cinco anos atrás. Nos mercados audiovisuais amadurecidos do mundo, 3% teria seu processo de produção cancelado puramente baseada no cenário da dramaturgia onde seria inserida.

Um exemplo. Apenas um: Andrew Reich, redator americano com passagem em Friends, How I Met Your Mother e Rules of Engagement, vendeu para uma TV americana um piloto de uma comédia onde duas vizinhas se tornam amigas depois de descobrirem que seus maridos eram gays e viviam um affair secreto. Com dinheiro no bolso e produção encaminhada, Andrew recebe um telefonema. Sua ex-chefe Martha Kauffman, criadora de Friends, acabara de ter o piloto aprovado para uma série da Netflix com Jane Fonda: Gracie and Frankie.  O argumento? Duas mulheres se tornam amigas depois de descobrir que seus maridos tem um caso gay. Reich avisou o produtor do canal de TV e a série foi cancelada imediatamente. Porque nada é mais tóxico para um show do que o ranço da repetição temática. 3% deveria ter servido de cartão de visita para que seus realizadores pudessem se lançar em projetos mais ambiciosos. A falta de desapego falou mais alto.

"E se eu te disser que já vi coisa melhor, acredita?"
“E se eu te disser que já vi coisa melhor, acredita?”

Ufanismo

Há um subtexto no marketing de 3% que sugere a necessidade de ser tolerante com os equívocos da produção pelo fato de ser uma iniciativa pioneira para a Netflix no mercado brasileiro. O raciocínio seria esse: esta pode ser nossa única chance de realizar nosso sonho de produção de dramaturgia de gênero no Brasil. Por isso, devemos baixar a cabeça e não focar nas imperfeições do processo. Se a Netflix der um trocado, a equipe produzir e nós assistirmos sem questionar, talvez consigamos mais espaço entre a minoria idealizadora de conteúdo. Ou seja, se a série der certo, seremos merecedores de novas oportunidades. Em outras palavras, devemos assistir mais ou menos pelo mesmo motivo que os personagens da série devem participar do processo.

Da minha parte, eu não escolho o que eu assisto baseado no local de nascimento dos realizadores. Meu tempo é curto e a oferta é extensa. E produções bem realizadas terão minha atenção, independente de sua localização no Google Maps.

Temos Ficção Científica e Stand Up Comedy de qualidade ou nacionais. Só escolher.
Temos Ficção Científica e Stand Up Comedy de qualidade ou nacionais. Só escolher.

 

E você? Tá curtindo os 3%? Comente aí! 

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