Livros que ninguém entendeu. Nem seu professor.

Quase todo clássico acaba ganhando interpretações ridículas. Algumas pessoas tem teorias malucas sobre Harry Potter como uma alegoria para um amor gay e Senhor dos Anéis como uma alegoria para a Segunda Guerra Mundial e a bomba atômica. Mas alguns desses equívocos acabam colando. Na verdade, alguns acabam sendo ensinados nas escolas. Confira.

 

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

Considerado o maior manifesto contra a censura do nosso tempo. A imagem dos funcionários do governo reunindo e queimando livros é tão icônica no mundo livre quanto o Big Brother (e não estamos falando do programa da Globo).

Em Fahrenheit 451, os EUA do futuro é uma sociedade caótica e uma nação de boçais. Livros foram proibidos por promoverem intelectualismo e liberdade de pensamento, o que inevitavelmente leva ao debate, considerado politicamente incorreto porque opiniões divergentes chateiam as pessoas. Ao invés de combater incêndios, os bombeiros são enviados para vasculhar casas e confiscar os livros contrabandeados que ainda não foram para a fogueira.

Praticamente todos os críticos e acadêmicos literários do planeta viram o romance como uma metáfora pra os perigos da censura de um Estado ditatorial. Considerando que a história fala de livros sendo queimados, até faz sentido.

Na verdade, Bradbury estava mais preocupado com a TV destruindo o interesse pela literatura. De acordo com o autor, a televisão é inútil e comprime os importantes fatos do mundo em pequenos factóides, contribuindo para o déficit de atenção da população. O que não deixa de ser uma ironia, já grande parte da fama de Bradbury surgiu das adaptações de suas histórias para séries televisivas de ficção científica.

Inclusive o autor sabia desse equívoco de interpretação por parte de seus leitores. Quando Bradbury deu uma palestra na Universidade da Califórnia, alunos tiveram a coragem de dizer na cara dele que ele – o autor – estava enganado sobre o significado do próprio livro, que na verdade era sim sobre censura. Ele se levantou, catou suas coisas e foi embora, deixando os acadêmicos falando sozinho.

 

O Príncipe, de Maquiavel

Se chamamos uma pessoa de maquiavélico, provavelmente não é um elogio. O diplomata italiano Maquiavel tem uma fama péssima de “cruel e tirânico”. Para piorar, Napoleão, Stalin e Mussolini eram fãs declarados de sua obra.

A razão para isso é que O Príncipe é um dos mais famosos tratados políticos já escritos, e foi concebido como um manual de instruções para o ditador florentino Lorenzo de’ Medici para ajudá-lo a ser ainda mais horrível. Desconsiderando totalmente as questões morais, o livro funciona como um discurso sobre a melhor maneira de conquistar e manter o poder, afirmando que é melhor ser temido que amado, que a desonestidade compensa no final contando que você minta sobre o quando você é desonesto.

Mas, na verdade, Maquiavel estava apenas trolando. O livro é uma sátira. O autor era um conhecido progressista, a favor de republicas e democracias e liberdade de expressão. Tanto que, como reprimenda por um discurso considerado subversivo, Medici mandou quebrar o braço de Maquiavel e o expulsou de Florença. No exílio, ele escreveu O Príncipe, um ensaio movido pelo sarcasmo e o deboche.

Pouca gente entendeu a piada.

Muitos acreditam que o equívoco de interpretação se deve ao péssimo trabalho de tradução da obra para outros idiomas. Por exemplo, a famosa frase “o fim justifica os meios”, na verdade deveria ter sido traduzida como “é preciso considerar o fim”, ou seja, o sentido é completamente diferente.

 

 


Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll

Você conhece a história: menina desce pelo buraco do coelho e descobre um mundo surreal. Agora, aqui está o que você não sabe.

Lewis Carroll era o pseudônimo de um reverendo muito conservador chamado Charles Lutwidge Dodgson. Diácono anglicano e professor de matemática, ele escreveu Alice na década de 1860, uma era em que a coisa mais radical acontecendo nas universidades era a descoberta de matemática complexa. E o reverendo acreditava que aquilo levaria a humanidade direto para o inferno.

Na cabeça de Dodgson, essa nova matemática parecia não ter mais aplicação no mundo real. Ele sabia que era possível subtrair 2 maçãs de um total de cinco e ainda ficar com três. Mas quando você começa a pensar em -1 maçã, estamos vivendo no mundo da lua. O reverendo decidiu escrever um livro sobre um mundo que seguia as leias abstratas da matemática simplesmente para demonstrar o quanto esse mundo seria sem sentido.

As coisas ficam mudando de tamanho e proporção na frente da Alice não porque ela está sob o efeito de drogas, mas porque esse mundo é baseado na estupidez da álgebra pós-moderna aonde os números não faziam sentido para o pobre diácono. “Alice” era uma representação da sensatez dos matemáticos euclidianos tentando desesperadamente manter a sanidade enquanto o “país das maravilhas”, na verdade a faculdade de Oxford, onde Dodgson trabalhava, era povoada por gente maluca pregando maluquices. Na opinião dele, claro.

 

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