10 coisas que seu primeiro capítulo precisa fazer

1) Apresentar o personagem principal
Abra seu livro com uma cena envolvendo seu protagonitsta. Sim, eu sei qu o padrão de toda série policial envolve pessoas aleatórias descobrindo cadáveres ou sendo assassinadas. Isso é ótimo para programas de TV. Para livros, nem tanto.

Os primeiros personagens que encontramos em uma obra acabam desenvolvendo um elo com o leitor. Se essa pessoa morre cinco páginas depois, o leitor pode se sentir traído.

Não precisamos de muitos detalhes já de saída. Mas precisamos do suficiente para nos importarmos com o personagem. Você pode ser bem vago quanto às descrições físicas. Tudo que Jane Austen nos diz sobre Elizabeth Bennett, por exemplo, é que ela tinha “belos olhos”.

Provavelmente é útil saber o sexo, talvez o status social, profissão e posição na sociedade. Mas, acima de tudo, precisamos saber as emoções que o personagem sente na cena. De preferência, algo que o leitor possa se identificar.

 

2) Despertar o interesse
Isso é mais difícil do que parece. O que desperta o nosso interesse? Não existe uma fórmula universal que funcione com todo leitor e em todo gênero literário.

Editores sempre dizem que querem um personagem “atrativo”, mas isso não significa necessáriamente que deva ser alguém perfeito e amistoso.

Scarlett O’Hara era superficial e narcisista, mas ela fascina leitores e espectadores há quase um século. Dexter é um  serial killer. E quem gostaria de passar algum tempo na companhia de Lisbeth Salander?

Você não precisa apresentar um protagonista tão falho quanto esses, mas é importante que ele tenha fraquezas.

O que leitores normalmente odeiam é personagem arrogante, chorão ou mesquinho. Um herói precisa ser corajoso de alguma forma, então mostre o potencial dele logo de saída.

3) Estabelecer o tom
Não comece sua comédia romântica com um assassinato sangrento. Nem o seu suspense com uma cena comédia pastelão. A ideia é mergulhar o leitor no mundo do seu livro desde o primeiro parágrafo. Como escritores não podem usar trilha sonora e direção de arte para estabelecer o tom da obra, use suas palavras.

Hoje em dia está meio fora de moda abrir seu livro com longas descrições climáticas, mas umas rápidas referências podem ajudar a estabelecer o espírito da sua história, por exemplo. Uma sequência de frases curtas pode dar a ideia de perigo. Umas piadas auto-depreciativas podem estabelecer sua comédia. E assim por diante.

4) Apresentar o tema
Se você está lidando com um tema específico, estabeleça isso. Mas não precisa ser óbvio. Pelo contrário, use a sutileza. Grandes autores fazem isso em uma só frase.

William Gibson começa Neuromancer, o romance que inaugurou o gênero cyberpunk: “O céu tinha a cor de uma televisão sintonizada em um canal morto. ” Gibson nos informa de saída que o livro é sobre o lado sombrio da tecnologia.

5) Informar sobre o local
Não precisa de um monte de descrições físicas, mas é importante saber em que planeta ou período histórico a narrativa se passa.

Em ficção científica e fantasia, por exemplo, é importante construir o universo, mas atenha-se ao absolutamente necessário e preencha os detalhes depois. Muitos autores desses gêneros tendem a exagerar na apresentação do mundo logo de saída. O ideal é contar o suficiente para que possamos enxergar a cena, sem ralentar a ação da mesma.

6) Apresentar o antagonista
O antagonista é algo ou alguém que impede o protagonista de atingir seu objetivo.

Esse é um conceito bem difícil para novos escritores.

Você pode achar que não está escrevendo um policial ou um romance de espiões e, por essa razão, não precisa de um antagonista. Mas você está confundindo vilão e antagonista. Coisas diferentes.

Um antagonista pode ser toda a sociedade, um vício, o sistema judiciário ou qualquer coisa que impeça o protagonista de chegar onde deseja. Acredite. Você precisa de um antagonista.

7) Estabelecer um conflito
O conflito é necessário não apenas na primeira cena, mas também para esboçar a tensão que vai colocar seu enredo em movimento.

Em Jogos Vorazes, a questão da cena de abertura é quem será escolhido para os jogos. Mas o conflito maior é os Jogos Vorazes em si. Quando o conflito da primeira cena é resolvido, nós continuamos virando as páginas em função da tensão maior na história: como Katniss sobreviverá?

Conflito não tem que significar uma batalha de verdade. Na verdade, começar um livro no meio de uma batalha pode ser confuso para o leitor. É mais aconselhável começar com algo como a protagonista se preparando para a batalha roubando a armadura do irmão depois que o pai a proibiu de lutar.

8) Deixar claro o que o protagonista quer
Precisamos saber o que ele quer. Seja um desejo por vingança, sobrevivência, amor, liberdade ou uma bicicleta nova. Qual é o derradeiro objetivo do personagem e qual é o objetivo imediato. Exemplo: quer livrar a princesa do castelo mas, no momento, quer desesperadamente sair da areia movediça. É importante que as intenções sejam bem definidas.

Sem dúvida, o derradeiro objetivo não precisa aparecer no capítulo I. Mas é preciso que o objetivo deste capítulo leve ao objetivo final.

9) Criar um incidente inicial emocionante
O incidente inicial é o acontecimento que vai colocar a história em movimento. Isso é mais fácil em alguns gêneros. Por exemplo, um mistério geralmente começa com a descoberta de um cadáver. Mas em outros gêneros, pode ser mais difícil colocar o incidente tão próximo do começo do livro. Mas é importante fazer esse esforço. A maior parte dos leitores não vai se enamorar da sua prosa até encontrar uma história envolvente. E ela geralmente começa com esse incidente.

10) Apresentar os outros personagens centrais 
“Centrais” é a palavra-chave. Não deixe que personagens menores roubem a cena do seu herói nas primeiras páginas. NA verdade, seria aconselhável evitar esses personagens menores logo no início. Tem tanta coisa para colocar na cena de abertura que é melhor guardar os coadjuvantes para um outro momento.

Muitos novos escritores tendem a lotar os primeiros capítulos com personagens chamativos que nunca mais aparecem na história. Isso pode ser irritante para o leitor, que espera que pessoas apresentadas no início da história retornem e tenham um papel importante na história.

***
Eu sei o que você está pensando: Tem uma dúzia de campeões de venda que não seguem essas recomendações. É verdade. Não são regras, mas recomendações. Coisas para se ter em mente. Se sua verve literária é tão incrível que o leitor nem se dá conta da ausência desses detalhes, parabéns! Mas, para a maioria de nós mortais, os leitores demonstram satisfação em receber informação relevante já nas primeiras páginas do livro.

Se o seu primeiro capítulo não faz nada disso – e a maioria dos primeiros tratamentos têm esse problema – tente este truque: corte os dois primeiros capítulos. O capítulo três oferece um começo melhor? Comece por ele. Depois, recoloque as informações dos dois capítulos cortados aos poucos, ao longo do livro.

Tem alguma outra coisa que você acha importante constar num primeiro capítulo? Deixe seu comentário e participe da conversa. 

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3 comentários sobre “10 coisas que seu primeiro capítulo precisa fazer

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