Cinco conselhos literários mal compreendidos

O que mais tem aí pela internet é conselho para novos escritores. Alguns são bons, outros nem tanto. Mas existe também uma terceira categoria de conselho muito comu: o conselho inconpreendido. Aqueles que são sempre repetidos e nunca bem interpretados. Como numa espécie de telefone sem fio, o conselho vai passando de orelha em orelha, ficando mais curto, menos coerente e mais equivocado a cada passada. Isso é problemático porque pode levar a tropeços de dramaturgia que comprometem a qualidade da obra do pobre escritor novato. Vamos dar uma olhada nos conselhos mais comuns e o que eles realmente querem dizer.  

1. Histórias precisam de conflito

Bilbo and the dwarves from The Hobbit.
Nem todo conflito acaba em pancadaria.

Muita gente ouve esse conselho e entende que suas histórias precisam de muita violência e explosões. Que o destino do mundo precisa estar em risco. Tudo tem que ser sério e soturno, pesando no coração do leitor até acabar com o prazer da leitura. E que os personagens precisam se odiar e estar brigando constantemente. 

Então, a violência é uma forma válida de conflito. Mas não é a única. Em uma história, um hobbit pode querer destruir um anel mágico para evitar que as trevas dominem sua terra. Em outra, o hobbit pode precisar ganhar o respeito de alguns anões. 

Quando autores pensam que conflito é tiro, porrada e bomba, isso pode ser desestimulante para eles. Escritores trabalhando em histórias mais leves geralmente acham que seus livros não são relevantes porque ninguém morre neles. Pior, alguns rejeitam o conceito de conflito porque acham que tem relação com tiroteio espacial. E é assim que acabamos com um monte de romances onde absolutamente nada acontece. 

Conflito é o que norteia a história. É o que o personagem deseja e porque ele não pode imediatamente ter aquilo que deseja. Se a história não tem algum tipo de conflito, o leitor fica mais propenso a desistir da leitura, já que não encontra um motivo para seguir aquela narrativa. Mas dentro dessa definição, as possibilidades são infinitas. É verdade que histórias com conflitos menos intensos tem mais dificuldade em cativar o público. É por isso que histórias mais leves complementam seus conflitos com humor, sensualidade, romantismo… É super válido criar uma histórias sobre um grupo de idosas em viagem à Disneylandia. Enquanto o conflito for relevante para o leitor, a história pode funcionar.  

2. A história tem que ser “realista”

Rey handing Luke his lightsaber.
“Os novos filmes da série não realistas como os primeiros”. Oi?

Hoje em dia, qualquer um com uma webcam é crítico. E tanto criticismo tende a contribuir com a confusão sobre o que é “realista”. Então o Youtuber diz algo como: “Muito legal sua história, infelizmente, explosões no espaço não são possíveis, então pode jogar seu manuscrito no lixo. Não se esqueça de curtir e seguir nossa página”.

Não é assim que funciona. Se existe alguma história sem problemas de “lógica”, ela ainda não foi lançada.  Normalmente quando alguém reclama de que algo na história não é “realista”, a pessoa quer dizer “verossímil”.

Na verdade a ficção não precisa ser “realista”, mas precisa ser verossímil. Ou seja, as regras estabelecidas no universo precisam ser respeitadas, mas não precisam ser necessariamente as mesmas regras da vida real. Num mundo onde seis jovens conseguem morar em gigantescos apartamentos perto do Central Park, o fato de eles passarem a maior parte do tempo numa cafeteria não é um problema, por exemplo. E ninguém está preocupado em saber se Jack Bouer passava 24 horas sem ir ao banheiro.

A construção do universo, dos personagens e da trama são ferramentas para que o autor seduza seu leitor a suspender sua incredulidade e abraçar esse mundo novo e suas regras.

3. Escreva o que você sabe

Victor Frankenstein and Igor standing next to the monster's slab.
Mary Shelley tinha experiência em reanimar cadáveres?

Esse é um clássico que pessoas costumam interpretar como “só escreva sobre suas próprias experiências”. Isso é incrivelmente limitador e desqualificaria a maior parte dos escritores do mundo. Quem nunca esteve na guerra não pode escrever sobre conflitos militares; quem nunca foi detetive não pode escrever romances policiais. E só pesquisadores loucos podem escrever ficção científica. Menos, gente. Menos. 

O conselho apenas sugere que usemos nossas próprias experiências em nossa escrita. Isso pode ser interpretado de uma forma mais direta, por exemplo: sua história se passa na sua cidade natal e você pode descrever o cenário com facilidade. Outras vezes, é mais sutil. Seu irmão não precisa ter sido devorado por um dragão para que você possa falar sobre a dor da perda de um ente querido. 

O mesmo se aplica quando autores escreve personagens que são diferentes dele próprio. Um autor branco pode não saber o que é ser um chinês criado nos EUA. Mas ele ainda pode usar suas próprias experiências de inadequação para ilustrar essa história. Quando seu personagem mata o vilão, é apropriado utilizar suas próprias referências para ilustrar a sensação de triunfo pessoal. 

Isso vale para todas as situações? Não, claro que não. Próximo item:

4. Não conte a história dos outros

Cover art from No Man of Woman Born
“Sou homem. Minha protagonista pode ser mulher?”

Esse é o item mais polêmico da lista, já que muitos autores caucasianos acham que não é legítimo escrever sobre personagens que não são como ele, e muitos outros não gostam de ouvir que existam histórias que eles não deveriam contar. Quando dizem para estes autores que eles deveriam dar espaço para outros, eles interpretam isso como uma exigência para que não usem personagens que não têm o mesmo típico físico que eles. 

O problema é que a diversidade na representação de minorias é tão escassa na literatura que mesmo quem não é minoria precisa fazer sua parte para que essa representação seja normatizada.

O problema é quando sua história é diretamente relacionada com a opressão sofrida pela minoria em questão. Histórias de violência policial contra negros, por exemplo. O preconceito contra transsexuais. Essas histórias são muito importantes e é muito fácil errar a mão. Deixe esses temas para quem sofreu estas experiências. Até porque, a força do testemunho pessoal nesta forma de narrativa é incontestável. Deixe que estes autores contem suas próprias histórias. Mas isto  não significa que você deve fugir da raia. 

Basta incorporar mais diversidade entre os seus personagens, sem colocá-los em situações esteriotipadas. Tudo bem sua protagonista ser lésbica. O conflito não precisa ter nada a ver com sua orientação sexual. Tudo bem o cientista-chefe ser negro. Acredite: há negros cientistas. E essa representatividade positiva é importante para você e para a sociedade como um todo. Não tema a diversidade. 

5. Mostre, não conte.

Boromir struck by orc arrows.
Um conselho para todos, menos para Tolkien. 

Na real? Escritor não “mostra” nada. Artes visuais “mostram”. Literatura “conta”. O mandamento “Mostre, não conte” tem a ver com a melhor maneira de representar uma cena em relação com sua importância. 

Algumas partes da história podem ser contadas de forma resumida porque são menos importantes e não precisam ser apresentadas em cenas mais detalhadas (mostrar). Quando autores “mostram” coisas que deviam apenas ser mencionadas, a história perde ritmo e foco. 

No entanto, a chance de um escritor “detalhar muito” uma cena é relativamente pequena. Na maioria das vezes, é o contrário. Autores tendem a resumir cenas vitais como se não tivessem importância. Isso é comum e acontece porque “contar” é mais natural. É como as pessoas se comunicam oralmente. “Mostrar” envolve escolher palavras, pontos de vista, imagens. Arquitetar uma cena para que ela tenha o impacto necessário é mais trabalhoso. E, até por isso, mais vantajoso. 

“Ah, mas J.R.R. Tolkien faz isso o tempo todo”, diz você. Bem, não conheço o seu texto, caro leitor-escritor. Só sei que EU não sou Tolkien. E subverter o conceito “mostrar-contar” é possível, claro, como ele fez na morte de Boromir, em A Sociedade do Anel. Para o resto de nós, mortais, é prudente focar nossos esforços no “mostrar” das cenas cruciais da nossa história. Mas, claro, é só um conselho.

Qual o melhor conselho que você já recebeu sobre seu estilo literário? Deixe sua opinião e participe da conversa.

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