Cinco sinais de que você escreve porn sem saber

O juiz norte-americano Potter Stwart ficou famoso pela sua (não) definição de pornografia “eu reconheço quando a vejo”. E a maior parte das pessoas tende a concordar com ele, confundindo sexo explítico com pornografia. Na realidade, nem toda cena de sexo explícito constitui pornografia e vice-versa.

Acontece que o termo “pornografia” ou “porn” para encurtar, é muito mais amplo. Existem filmes de terror (torture porn), programas de culinária (food porn) e até documentários (reality porn) que usam as mesmas técnicas da galera do Brasileirinhas.

E digo mais: tem muito autor aí fazendo porn sem saber. Será que você é um deles?

Nada contra, é importante que se diga. Você pode, é claro, escrever porn. Seja feliz e rico, a julgar pelo cenário no Wattpad. Mas é importante ter a consciência e a clareza do que está propondo. Porque a liberdade de expressão ainda existe para ser desfrutrada, e você vai encontar seu público, contanto que seja sincero. E este é o ponto principal dessa lista.

1 – Seu personagem é mais corpo que cabeça

Em porn, os personagens são corpos. Avatares para os desejos do leitor. Então, quanto mais vagas forem as suas motivações e sua identidade, melhor.
Às vezes, esse tipo de objetificação do protagonista é tão evidente que transborda do corpo do texto para a capa do livro. E vemos um dorso ilustrando a capa. Sem cabeça, sem pernas ou braços. Só o peito depilado e a barriga de tanquinho. Esse é o protagonista: uma bisteca. E é só o que ele precisa ser: um veículo, um avatar malhado.Isso não quer dizer que eles não tenham personalidade, pelo contrário. Assim como seus corpos malhados, seu caráter é idealizado, estóico. O personagem vira essa armadura, essa representação do que o leitor (e o autor) gostaria de ser. Geralmente é alguém atormentado, mas nobre. Rude, mas genial e charmoso, etc. E está tudo bem.

2 – A ação é o que interessa, o resto não tem pressa

Porn é sobre o “vamo-vê”, sobre o “rala-e-rola”. Tudo mais é desculpa para o grande momento, a “ação”. Em porn de artes marciais, tudo que não é luta é clichê, convenção e repetição. Justamente porque o que importa é o pé na cara, o soco na fuça. Em programas de culinária porn, ingredientes, técnicas, preparação, tudo é corrido. O que é em câmera lenta é a calda de chocolate, o queijo derretido, a crocância da massa. Tudo que é estímulo sensorial tem precedência sobre a narrativa. Afinal, a gente veio aqui para ver “o pau comer” ou para conversar?

3 – O conflito é visível, palpável… hummmm

Em qualquer outro genêro ou estilo literário, a ação é um instrumento para avançar a história. Por isso, conhecer o que está em jogo em cada conflito é fundamental. Quais as relações entre os personagens? Seus arquétipos? Que fatores são favóraveis ou desfavoráveis para o protagonista naquele momento? Como o universo onde estão inseridos afeta o balanço de forças do conflito?  Já o porn é centrado no “fetiche” escolhido pelo autor, a ação É a história. Tudo ao redor é circunstancial. Logo, tempo gasto em conflitos morais internos, em personagens considerando seus papéis no universo diante do espelho, é tempo disperdiçado. Então. Se o seu texto é porn, o conflito entre os personagens deve se manifestar através da ação.

 

4 – Ao fim do conflito, os personagens encontram satisfação, não transformação.

Como dissemos no ítem acima, a ação costuma impulsionar a narrativa à sua próxima etapa. Logo, ao fim de uma luta, de um beijo, de uma cena de sexo ou de exorcismo, os personagens tem que “aprender” algo. Ter suas crenças confrontadas, encontrar uma pista, descobrir um segredo. O porn, por sua vez, só exige satisfação e realização ao fim de suas “ações”, porque sua função é proporcionar ao leitor a chance de viver vicariamente através de seu personagem. Não há nada para “aprender”. Mas há desejos para “satisfazer”. Seja esse desejo por sexo, vingança, violência ou calda de chocolate.

5 – A trama é um subterfúgio para concretização das suas fantasias.

Em ficção, muito se fala sobre os temas, as metáforas, o subtexto de uma história. Muitos autores usam suas narrativas como analogias para questões maiores. Para discutir a sociedade, a tecnologia, os valores de uma nação. Quem escreve porn está preocupado em dar vazão às fantasias. Suas e de seu público. Não tem discurso, não tem moral da história. Tem desejo, vontade, fetiche e êxtase. Exigir engajamento filosófico do autor e dos leitores de porn não é necessariamente injusto, mas é equivocado. Não estão ali para isso. Ninguém vai para a orgia para debater Platão. Mas quem quer vivenciar orgias sensoriais de diversas naturezas sem culpa ou compromisso, consome porn.

 

E então, você escreve porn? Lê porn? Deixe sua opinião nos comentários.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s