Estruturas para moldar sua Narrativa

Existem dois tipos de “contadores de história”, o termo amplo que usamos na Toska Literatura para falar de escritores, roteiristas, diretores, compositores, palestrantes e todo mundo que trabalha com a criação e apresentação de narrativas. Os Plotters e os Pantsers. Os Plotters, são os que planejam o enredo, pensam a estrutura, começo, meio e fim, depois escrevem a narrativa propriamente dita. Os Pantsers fazem mais o estilo Zeca Pagodinho “deixa a história me levar”. Tem muita gente boa nos dois campos e, no final das contas, é uma questão de metodologia de trabalho. Cada um faz aquilo que lhe for mais produtivo e confortável.

Da minha parte, eu já escrevi livros e roteiros das duas formas. E em mais de dez anos atuando e dirigindo espetáculos de improvisação teatral, não tenho medo de deixar o fluxo da narrativa ditar os próximos passos. Mas um segredo que os pantsers e improvisadores se recusam a revelar é que SEMPRE HÁ UMA ESTRUTURA. Mesmo que seja inconsciente. Mesmo que seja para ser subvertida. Trabalhamos a partir de um referencial do que seja uma história e esse referencial influencia nossas narrativas mais “vida louca”.

Pensando nisso, separamos aqui alguns modelos de estrutura que podem auxiliá-lo a montar os trilhos por onde sua locomotiva imaginária pode levar sua história. Você pode usá-las literalmente, inspirar-se nos modelos ou apenas chamar tudo de bobagem e se jogar no universo Pantser. Mas informação nunca é demais.

 

O Monomito

Também chamado de A Jornada do Herói, é provavelmente a estrutura mais usada, conhecida e referenciada quando o assunto é narrativa. O protagonista é levado a deixar sua casa (ou zona de conforto) para seguir uma jornada cheia de provações e aprendizado. Ao final, ele enfrenta o maior dos desafios e retorna ao lar transformado. De Harry Potter a Luke Skywalker, passando por Neo do Matrix a Katniss Averdine e Hércules, não faltam exemplos de histórias famosas que focam na trajetória de transformação e crescimento do protagonista, que age como um avatar do leitor/espectador/ouvinte. Por isso mesmo, tais histórias tem tanto impacto. O público se identifica com o personagem, sua superação e transformação. Não é atoa que 90% dos cursos de roteiro usam este modelo de narrativa para ensinar narrativa.

Ideias Convergentes

Também conhecido como “Ensamble” é uma estrutura mais comum em palestras e discursos, mas é igualmente eficiente para contadores de histórias dispostos a experimentá-la.

Esta estrutura mostra ao público como diferentes linhas de pensamento convergem e formam uma ideia. Pode ser usada para contar a história de um movimento, ou a história de colaboração de múltiplos personagens para um grande resultado. É comum em obras em que a combinação de diversas pessoas em torno de um grande acontecimento, como uma guerra ou um grande acontecimento histórico pintam um cenário maior sobre as relações humanas do que a jornada individual de um protagonista.

 

In Media Res

Mais utilizada para histórias curtas, a estrutura In Media Res ou “Comece do Meio”, joga o espectador no meio da narrativa, fomentando interesse tanto no que se passou antes quanto nas consequências da situação que se apresenta. Alguns autores creditam “In Media Res” mais como uma ferramenta de edição do que de criação. A história seria criada numa estrutura formal de começo, meio e fim e depois editada para uma narrativa fora de ordem cronológica. É possível, no entanto, usar esta estrutra para plotar a história. Comece a escrever sua história pelo clímax. Foque primeiro naquela cena ou imagem que é o ápice da sua narrativa. Depois, escreva o começo de forma a transportar personagens e audiência ao momento máximo da tensão dramática.

 

A Montanha

Ao invés de focar na trajetória de crescimento do personagem, a estrutura da montanha se organiza em torno da tensão dramática. É o que vemos em filmes-catástrofe ou de terror, como os slasher films de assassinos seriais. Não se trata de explorar a evolução do protagonista, mas do problema que este enfrenta. Pouco a pouco, a situação se torna mais e mais tensa até o clímax, quanto tudo se resolve e a ordem daquele universo narrativo é restabelecida. Um bom exemplo deste tipo de narrativa é o filme Apolo 11, com Tom Hanks.

 

O falso começo

Alguns críticos reclamam do uso da estrutura como algo “formulaico”, ou seja, algo que tira a expontaneidade e a imprevisibilidade da narrativa. Acontece que mesmo a estrutura não é uma muleta, mas um recurso que se utiliza nas expectativas culturais do público para construir uma história. O falso começo é um um recurso estrutural que brinca com a reversão destas expectativas, subvertendo as premissas e surpreendendo o público. Essa subversão pode se dar em diferentes níveis. Desde a mudança de gênero narrativo (quando um filme de ficção científica se transforma em um filme de terror, por exemplo.) Ou mesmo de troca de protagonistas. Psicose, por exemplo, começa seguindo uma mulher que se hospeda num hotel. Para a surpresa de todos, o protagonista é substituído no segundo ato do filme.

 

A Estrutura das Pétalas

A estrutura das pétalas conta uma história através de várias mini-histórias centradas num mesmo eixo comum. Pode-se tratar de um personagem (como em Peixe Grande ou Cidadão Kane) ou um acontecimento (ou narrativas seriadas, como a saga de Harry Potter). Cada mini-história se sobrepõe ao eixo narrativo central, criando uma narrativa multifacetada.

 

Como o leitor já deve ter percebido, cada uma dessas estruturas parece focar num aspecto diferente da narrativa. O personagem, o enredo, o universo em que a história está inserida e os recursos de apresentação da história. Por esse motivo, muitos autores experientes usam combinações dessas estruturas para contar suas histórias. É comum, por exemplo, focar na montanha para pensar as cenas e no monomito para a construção do arco dramático do personagem. Outros usam as pétalas e o falso começo para organizar a história em narrativas não lineares com um apelo mais sedutor.

O fato é que não se tratam de imposições técnicas, mas de recursos criativos. As estruturas de narrativa são ferramentas úteis à disposição dos contadores de história para que usem, abusem ou desprezem, sempre em função da imaginação do autor. Nunca ao contrário.

 

E você? É pantser ou plotter? Deixe sua resposta nos comentários.

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